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De volta às essenciais rodovias (e ao blog)

Travessia do rio São Francisco na região de Três Marias (MG)

Travessia do rio São Francisco na região de Três Marias (MG)

Tirados 17 dias de férias, e tendo retornado ao trabalho há cerca de um mês, volto – após meses e meses – a postar nesse espaço. Finalmente, encontrei novo motivo para ligar as pontas.

Pudera. Além dos 8 dias na minha amada Floripa, foram outros 9 dias para lá de intensos em nossas estradas. Passei por 7 Estados: Distrito Federal, Goiás, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Santa Catarina.

Desbravei mais de 5.000 km de rodovias. Aprendi muito, vivi cada momento intensamente. Reencontrei muito da minha essência. Descobri muita coisa nova em mim. Com a companhia da linda Patrícia de Menezes em Floripa e encontrando muita gente querida e essencial pelo caminho.

Agora, rascunho um breve texto, focando nas questões das rodovias. Pois, afinal, é esse o intuito deste blog! As demais, provavelmente, nem mereceriam aparecer aqui.

Vale o registro, de passagem, que o fenômeno Facebook está engolindo a maior parte das nossas construções na internet, como tão bem registrou a turma do blog Trezentos, com Rodrigo Savazoni e Sergio Amadeu entre eles. Então, não quer dizer que eu não viesse postando. Mas sim que eu não estava a postar por aqui. Quem sabe, agora voltei de verdade?

Complexo de Ayrton Senna
Mas deixemos de divagar e voltemos a essa viagem em específico. Começo por uma das questões que mais me chamou a atenção no trajeto: a total imprudência dos motoristas ao dirigir sob a chuva. Na garoa de Belo Horizonte (MG) e Serra do Cafezal (SP), nas tempestades de Paracatu (MG) e Joinville (SC), na neblina de Itaipava (RJ) e Curitiba (PR), nas trovoadas de Juiz de Fora (MG) e Rio de Janeiro (RJ), a umidade que os cercava era o que menos importava – mas não impunemente.

Em meu primeiro pernoite, a parada às margens do rio São Francisco, em Três Marias (MG), trouxe o descanso merecido e exigido para a jornada do dia seguinte. O objetivo de chegar ao Rio de Janeiro era bem mais singelo no mapa (cerca de 800 km) do que sob a chuva que dominou todo o trajeto pela BR-040.

chuva_br_040

Nas proximidades de Belo Horizonte, acidentes em profusão na chuva

Ao parar em Felixlândia (MG), a atendente do posto de gasolina já me alertava: a estrada está bem perigosa. Acaba de morrer um casal, logo ali na frente. Foram sair do posto e acertaram eles em cheio!

Poucos quilômetros depois desse acidente, de um lado da estrada se avistava um caminhão que entrara por inteiro na caçamba-baú de outro maior. Ainda deste lado, um carro fora da pista. E do outro lado, um ônibus da empresa Catedral, que adentrou por dezenas de metros no acostamento após perder o controle. Por sorte, não havia vítimas fatais envolvidas.

Algo bem diferente do ocorrido com outro veículo da Catedral alguns dias depois, na mesma região. Acidente que gerou verdadeiro cenário de guerra, filmado por um motorista de caminhão – que fez questão de me mostrar o vídeo em outra ocasião na rodoviária de Brasília, logo antes de embarcarmos em um ônibus da mesma empresa (mas essa já é outra história).

Os dois acidentes visualizados em trecho tão breve de viagem me ligaram o alerta e ampliaram minha prudência. Mas não foi o caso, nem de longe, da maior parte dos motoristas que dividiam as pistas comigo naquela jornada.

Além de contabilizar cerca de 15 veículos que saíram da pista ao longo de toda a viagem de Brasília a Floripa e também no retorno, acompanhei, de forma dramática, ao menos duas perdas de controle de carros, a poucos metros de mim.

No pior desses momentos, um engarrafamento nas proximidades de Belo Horizonte parara toda a rodovia. Um caminhão estacionou no acostamento, para manutenção. Logo que percebi o cenário, liguei o pisca-alerta, a fim de avisar aos motoristas que vinham atrás para que diminuíssem a velocidade até parar.

Uma Belina verde metálico que vinha próxima a mim, contudo, não percebeu. Eram quatro as opções: entrar em cheio na minha traseira, acertar o carro ao lado da mesma maneira, alojar-se sob o caminhão parado no acostamento ou… Enquanto eu via pelo espelho o que seria de nós ali, o motorista, por bem, achou uma alternativa!

O condutor conseguiu desviar dos 3, e lançou-se com tudo sobre os capins do acostamento. O destino parecia certo: despencar alguns metros ribanceira abaixo. Mas, por milagre, o capim (santo?!) o segurou.

Em outro momento desses, na divisa entre Paraná e Santa Catarina, o condutor (morador de Itajaí/SC) rodou numa curva, logo atrás de mim. Assisti ao acidente pelo retrovisor. No meio da curva, ele perdeu a direção, bateu na divisória da pista (aquelas muretas de concreto, modelo “New Jersey”) atravessou a pista de novo e saiu pelo acostamento.

Parei o carro de imediato e fui vê-lo – curiosamente, havia escolhido aquele veiculo como referência, até para ir junto, dosar a velocidade, etc. Enfim, o carro não andava mais – a sorte foi que ninguém vinha logo atrás de nós e meu colega escapou ileso! Tendo me certificado disso, segui adiante.

E que curioso: não mais que 500 m à frente havia um radar fixo voltado a controlar a velocidade no trecho – 60 km/h. E, logo em seguida, um policial rodoviário manipulava um radar móvel. Para reforçar o controle, ou para multar a todos que passam por ali? Eu corro sério risco de ter caído na pegadinha…

Radares nas rodovias federais: possibilidades e pegadinhas

Radares nas rodovias federais: possibilidades e pegadinhas

Animais na pista
Enfim, dos males o menor. Muito menos sorte tiveram os muito bichos que visualizei atropelados ao longo do trajeto. Se é verdade que já havia visto tamanduás mortos no trecho entre Uberaba-Uberlândia-Araguari, desta vez o Triângulo Mineiro me trouxe a triste visão de um ouriço-cacheiro atropelado na pista.

Quase parei para socorrê-lo – quem sabe se estaria morto, mesmo? Mas me faltou o ímpeto de acreditar que fazer a diferença ali era maior do que querer fazer a diferença sempre.

Algo que minha mãe, a artista plástica Angela Leite me ensinou muito bem a fazer, com o teiú da Jureia, o tatuzinho do Maranhão, e Chica, a vira-lata da Superquadra. Nem sempre poderemos salvar, mas por que não tentar? Aliás, pergunto aos colegas da Zoologia, Ecologia, Biologia e afins como proceder num caso desses: o que fazer diante de um ouriço atropelado – e vivo que esteja – à beira da estrada?!

Nessa questão da velocidade, bem disse meu amigo Daniel Merli: mais que a velocidade imediata em determinado momento, há que calcular a velocidade média do motorista ao longo de um trecho. Critério mais correto de se verificar o respeito às normas e de garantir a segurança nas pistas – além de menos sujeito a malandragens dos motoristas (especialmente os que sabem onde ficam os radares), e menos voltado a somente pegar de surpresa os condutores. Vai ser proposta de lei da Dilminha, Merli, é isso?

Falando em Dilma, que vem ampliando um tanto o rol de ativos privatizáveis de nossa infra-estrutura, o debate sobre as rodovias privatizadas é uma pauta fantástica a ser tocada por algum veículo sério e por algum repórter de primeiro escalão. Que tal, Marcel Gomes, na Carta Maior? Ou Roberto Rockmann, no Valor? Flávio Gonçalves, da EBC, há muito aborda o tema também.

Afinal, qual o melhor modelo? Os pedágios exorbitantes das estaduais paulistas, transformados em verdadeiros tapetes oferecidos, por exemplo, na Bandeirantes? Os preços módicos praticados na Régis Bittencourt, entre São Paulo e Curitiba, que já melhoraram muito a segurança e sinalização no trajeto, mas ainda não permitiram a conclusão da duplicação da Serra do Cafezal?

A resposta quanto ao modelo pode ter como referência alguma proposta intermediária também. As condições e preços do pedágio na Presidente Dutra (BR-116 entre SP e RJ), ou da rodovia que liga Juiz de Fora ao Rio, ou mesmo no trecho da BR-101 entre Curitiba e Florianópolis são exemplos nesse sentido.

Em todos os casos, trata-se de trechos pedagiados, que não tornaram as rodovias perfeitas, e que tão pouco nos dão a resposta exata de como conjugar preço de pedágio, qualidade e segurança nas estradas, papel do Estado e da iniciativa privada, etc – mas que nos dão certamente ótimas pistas nesse sentido.

Em termos de certezas, só mesmo a impressão de que o trecho que sai de Belo Horizonte e passa pelas imediações de Ouro Preto, Congonhas do Campo, Conselheiro Lafaiete e Barbacena é para quem gosta de fortes emoções. Sob chuva, e com a terra misturando-se à água na pista então… Piores momentos da viagem, com certeza.

Essa parte da viagem me obriga a frisar uma dica preciosa: sempre evite entrar na curva junto com um ônibus ou caminhão (seja em sentido contrário, seja se estiverem seguindo na mesma direção). O risco de acidente se potencializa enormemente!

Quanto aos encantos, mais uma vez desbravar a Rio-Santos compensa qualquer ampliação de trajeto. Revisitar o litoral fluminense e paulista, bem como toda nossa história e vivências, exige compartilhar um dia tal experiência.

Como o texto já está por demais longo, no entanto, opto por deixar o registro feito em viagem anterior, também pela Rio-Santos, e publicada na Revista do Brasil, conforme acordado com Paulo Donizetti, saudoso editor.

Bom, se ligar as pontas é falar um pouco de tudo, de mim, de nós, de vocês, do Brasil, vou tentar em breve compartilhar algo mais com vocês. Se considerarem inadequado ou por demais enfastiado, é favor avisar.